Fragmentos de Mata Atlântica do Nordeste: Biodiversidade, Conservação e suas Bromélias

Por Clóvis Cavalcanti

Presidente da ISEE

Esse é um livro basicamente de botânicos. Seus organizadores, Elton Leme e José Alves Siqueira, são ilustres conhecedores de plantas, mas especialmente de bromélias. Curiosamente, Leme não é biólogo de formação, como Alves Siqueira, mas advogado, professor da Faculdade de Direito da FGV no Rio de Janeiro e desembargador no fórum fluminense. Mesmo assim, é reputado como o maior conhecedor de bromélias do Brasil. Durante 10 anos, ele e seu colega da organização do volume, pesquisaram restos (fragmentos) ainda encontrados de Mata Atlântica no Nordeste. Para a finalização do livro, pediram-me que, no âmbito da economia ecológica, eu escrevesse o primeiro capítulo da obra. Debrucei-me sobre o assunto. Fiz um levantamento bibliográfico da historiografia desde o Descobrimento e terminei contribuindo com o trabalho que intitulei “Opulência Vegetal, Cobiça Insaciável e a Entronização da Entropia: Uma Visão da História Socioambiental da Mata Atlântica”, pp. 12-45 do volumoso livro. Que é também uma obra de arte pelo capricho de seu design, admirável trabalho da editora, Andrea Jakobsson Estúdio, do Rio.

Vale a pensa salientar que Elton Leme e José Alves Siqueira nem deveriam ser chamados de organizadores da obra. Com efeito, dos oito capítulos que a constituem, os dois aparecem como autores exclusivos de três e como coautores de outros três. Enfim, só estão ausentes do meu capítulo – que é de história socioambiental – e do que tem como responsáveis os botânicos Marcelo Tabarelli, Antônio V. Aguiar, Alexandre S. Grillo e André Maurício M. Santos. Afora esses autores, o livro ainda inclui o zoólogo Adelmar F. Coimbra Filho, a botânica Isabel Cristina Machado e o biólogo Juliano Sarmento Cabral. E tem como prefaciador um ilustre ecólogo e botânico britânico, o ex-diretor do Royal Botanic Gardens, Kew, Sir Ghillean Prance, que sublinha a magnificência da Mata Atlântica, considerando-a um hotspot para a conservação da biodiversidade. Neste ponto, ele reforça o que Leme e Alves Siqueira assinalam em termos do que esse bioma representa quanto ao fato de que é “um dos habitats naturais de crucial importância, sobre o qual devem recair todos os nossos esforços de conservação”. Basicamente, é disso que o livro trata na medida em que desvenda segredos, identifica espécies novas (muitas no limiar da extinção), reencontra outras que pareciam extintas, etc. Move-lhe o propósito de palavras de ordem como “conservar, conhecer, restaurar, ampliar e interligar”.

Meu capítulo na obra de Leme e Alves Siqueira, que escrevi tocado pelo belo livro de Gilbeto Freyre Nordeste, de 1937, tenta espelhar isso, o que procurei exprimir a começar do título que lhe dei. Título que parte de uma constatação do historiador pernambucano Leonardo Dantas Silva, que me ofereceu a oportunidade de pensar na “opulência vegetal” que os portugueses encontraram na Mata Atlântica nordestina. Dantas trata do tema em alguns de seus escritos. Falando de como os europeus chegaram ao país, por sua vez, Paulo Prado, em Retrato do Brasil (de 1931), realça o que ele classificava de “ambição do ouro”: uma “ganância insaciável”. Coroando o processo, a partir da ambição do lucro sem trabalho, como sublinha Sérgio Buarque de Holanda, chegamos à constatação dolorosa e verdadeira do historiador natural Warren Dean: “as hostes ignorantes derrotaram totalmente o  poder da evolução, entronizando em seu lugar a entropia”. Tudo a ver com a Economia Ecológica.

José Alves Siqueira Filho & Elton M. C. Leme (orgs.), Fragmentos de Mata Atlântica do Nordeste – Biodiversidade, Conservação e suas Bromélias. Rio de Janeiro: Andrea Jakobsson Estúdio, 2006.

Para aquisição clique aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *