Ortodoxia da Economia Ecológica (EE) nas especificidades do paradigma butanês

Por Clóvis Cavalcanti

Presidente da ISEE

Uma ideia que, compreensivelmente, tem recebido mais atenção nas discussões da EE consiste em mostrar que a realidade de “mundo cheio” de 2013, por exemplo (um planeta de 7,2 bilhões de pessoas e PIB global de 72 trilhões de dólares) contrasta intensamente com a de “mundo vazio” de, por exemplo, 1900, quando havia 1,5 bilhão de habitantes e PIB de 1,5 ou 2 trilhões de dólares no planeta. O contraste vigoroso seria razão suficiente para justificar a relevância da visão de mundo proposta pela EE, a qual considera limites inflexíveis da natureza, recusando-se, em contrapartida, a da economia standard, que os ignora completamente.

Faria muito mais sentido, na verdade, raciocinar agora com a “economia da espaçonave” do que com a economia do “cowboy”, da sugestiva dicotomia criada por Kenneth Boulding (1910-1993). Está em jogo aí a questão relativa à escala do sistema econômico que cabe no ecossistema que o contém – algo como saber quantas pessoas podem voar seguras num avião A-320. A escala do cowboy, com certeza, não prevalece; mas, sim, a do astronauta.

Com esse pano de fundo, Robert Costanza e outros escreveram relatório preciso para a ONU na antecipação da Rio+20, depois adaptado para o informe State of the World 2013, do Worldwatch Institute, daquele ano. No estudo, explicam como fica a realidade no quadro do que chamam de “economia-na-sociedade-na-natureza”. Trabalho de Joshua Farley apresentado na ISEE 2012, no Rio (Human Behavior, Economic Institutions and the Challenges of a Full World), insere-se no mesmo marco.

Contudo, não é isso o que está nas origens da EE. Georgecu-Roegen (G-R) simplesmente explicava que a economia é regida, como tudo o mais no meio físico, sem exceção, pelas Leis da Termodinâmica – ponto. O modelo do Butão tem apoio no mesmo raciocínio, mas age pelo padrão do “mundo cheio”, apesar de que se ajuste bem mais à condição de “mundo vazio” (nele vivem só 19 hab/km2; não há um único semáforo no país). A evidência é clara no discurso do Primeiro-Ministro Jigmi Thinley na ISEE 2012 (Rio):

Eu uso regularmente os resultados da Pegada [Ecológica] nos meus próprios pronunciamentos e, na verdade, apoio-me nessa informação para entender e comunicar o impacto devastador dos atuais padrões de consumo sobre os limitados recursos do mundo, e para solicitar políticas mais sustentáveis [Ela nos proporciona] ter noção do valor de cada recurso que consumimos e de cada nuança de nossos comportamentos e estilos de vida.

Essa consciência de limites se estende, na ocasião, a todo o discurso de Thinley. Nele, o governante butanês reforça a necessidade de se desmantelar o consumo excessivo; de se banir a publicidade dirigida a crianças; de se eliminarem subsídios que levam a uso maior de combustíveis fósseis. Pede que se elimine qualquer ajuda via deduções de impostos à promoção de negócios. Advoga a reforma tributária que penaliza a poluição, coíbe as emissões de carbono e a depleção de recursos e do capital natural. Tudo exatamente como Daly sempre propôs e Costanza e outros expunham então. Ou seja, a ortodoxia primordial da EE, que independe de mundo vazio ou mundo cheio.

O modelo butanês, assim, tem tudo a ver com o modelo de G-R. Ademais, não se trata, como insinuou Eric Zencey, de contemplar o potencial de uma união entre a FNB (felicidade nacional bruta) butanesa e a Economia Ecológica. A EE esteve desde sempre no âmago do Novo Paradigma de Desenvolvimento (NPD) do Butão. Faz parte intrínseca dele. A parceria, consciente ou não, com o NPD sempre existiu. Não obstante, o Reino do Butão, seguindo as tradições do budismo que lhe dão forma, de modo natural oferece um paradigma de desenvolvimento que não faz esforço algum para representar adesão a uma versão ocidentalizada da crítica ecológica da economia que a EE significa. Ele tem, de fato, suas especificidades – que não são banais.

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