Willian Nordhaus e o Modelo DICE

Ihering Guedes Alcoforado

Diretor Regional da ECOECO Nordeste

Nesta nota trato da tensão entre o programa de pesquisa de William D. Nordhaus, o Nobel de 2018, e a Economia Ecológica, por meio da problematização de algumas das premissas básicas adotadas no seu modelo DICE (Dynamic Integrated Model of Climate and Economy), a matriz que deu origem aos frameworks tais como Integrated Assessment Models (IAMs). As premissas foram selecionadas tendo em conta que podem ser utilizadas como critério para classificar uma obra ou um modelo, como uma expressão da economia ecológica.

A primeira premissa problemática é que o modelo DICE de W. Nordhaus assume que o crescimento econômico não é limitado pelos recursos econômicos ou por mudanças ambientais e, como não bastasse, o produto econômico no modelo DICE é estimado utilizando somente capital, trabalho e tecnologia reproduzíveis, onde o crescimento populacional e a mudança tecnológica são exógenas e o capital natural é totalmente desconsiderado. Em resumo, o modelo DICE se assenta em premissas fortes, que não são de forma nenhuma aceitável por um economista ecológico.

E mesmo que o DICE tenha a intenção em integrar os modelos econômicos com o resto do mundo natural, o que é compatível com a Economia Ecológica, é necessário chamar atenção que não existe no modelo um feedback da economia com o mundo natural. O fluxo é de mão única, ou seja, avalia o impacto da economia sobre o clima, considerando que a mediação pode ser feita tanto pelos ecossistemas naturais como pelos sistemas agrícolas.

A possível atração do modelo DICE para os economistas ecológicos é sua incorporação da mudança climática, o que, no entanto, é feito por meio por meio de uma representação bastante simplificada de um modelo de circulação atmosférica expresso em um conjunto de equações emissões-clima-dano, as quais têm como premissa uma relação linear muito simples entre a temperatura média global e a perda do produto global. Além disso, o modelo desconsidera, de um lado, os feedback correntes entre a mudança climática (incluindo os mais importantes aspectos de mudança na precipitação e especialmente a distribuição geográficas das mudanças) e mudanças ecossistêmicas; de outro lado, não contempla as mudanças nos ecossistemas e suas implicações na performance econômica. Tais links são complexos e não podem ser expressos por meio de relações lineares, por isso foram desconsiderados, a despeito deles alojarem-se a essência do problema em tela.

A adoção de tais premissas heroicas criam as condições para a operacionalização do modelo em tela, ou melhor, para que possam ser testados empiricamente, o que vem sendo feito com a disponibilização de “pacotes”, a partir do que se constitui em uma imposição metodológica que põe os economistas ecológicos em uma encruzilhada para definir os próximos passos na direção da configuração da economia ecológica. De um lado, avançar na modelagem computacional nas suas diversas variantes viabilizadas por meio de premissas fortes, que ancora ontologicamente o modelo na sua apreensão da realidade ambiental como ergódica, na linha apontada por Samuelson e seguida Nordhaus que, não por mera coincidência é parceiro de Samuelson na importante tarefa de inculcar no coração e mente dos jovens economista uma teoria econômica que tem como premissa a apreensão da realidade como ergódica. Ou, “chutar o pau da barraca”, e admitir que a realidade ambiental é não ergódica”, avançando na senda aberta por Douglass North e encarar o problema ambiental em tela, nos rastro de Hittel e Webber (1973) no que se refere a representação do problema enquanto um wicked problem e, no rastro de Funtowicz e Ravetz (1991) no que se reporta a natureza do conhecimento cientifico mobilizado enquanto uma ciência pós-normal.

Enfim, a despeito de todos os problemas do programa de Nordhaus, do ponto de vista da Economia Ecológica, pode-se concluir que é um avanço considerando a primeira geração de tais modelos com suas macro-simulações sem evidências empíricas e fundamentos teóricos, por meio que estabeleceram narrativas que conquistaram corações e mentes, movimento este representado de forma emblemática nos livros de Jay W. Forrester, World Dynamics, e o de Donella H. Meadows et al., The Limits to Growth, este último objeto de ácida critica de Nordhaus (1971), a qual pode ser tomada como ponto de partida do seu programa.

Referências

COSTANZA, R. 1996. “Managing the Global Commons: Review” In: Environment and Development Economics, 1996, V..1, N.3, pp. 381–384 https://doi.org/10.1017/S1355770X00000735

FORRESTER, Jay W., World Dynamics, Cambridge, Mass., Wright-Allen Press, Inc., 1971.

FUNTOWICZ, S. O. & RAVETZ, Jerome R., (1991)A New Scientific Methodology for Global Environmental Issues In Robert Costanza (ed.), Ecological  Economics: The Science and Management of Sustainability. Columbia University Press. pp. 137–152

MEADOWS, Donella H. et al., The Limits to Growth, New York, Universe Books, 1972.

RITTEL, Horst W. J. & WEBBER, Melvin M., Dilemmas in a General Theory of Planning. Policy Sciences, Vol. 4, №2 (Jun., 1973), pp. 155–169.

NORTH, Douglass, (1998) Dealing With a Non-Ergodic World: Institutional Economics, Property Rights, and the Global Environment. IN Duke Environmental Law & Policy Forum, Dealing With a Non-Ergodic World: INstitutional Economics, Property Rights, and the Globl Environment IN Duke Environmental Law & Law and Policy Fourum ,1998, v. 10, n. 1

NORDHAUS, William D., (1994) Managing the commons: The economics of climate change. The MIT

NORDHAUS, W. D. 1973. World dynamics: measurement without data. The Economic Journal. 83:1156–1183

SAMUELSON, P. A.(1969) “Classical and Neoclassical Theory” in Monetary Theory, edited by R.W. Clower. London: Penguin Books.

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